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Pecuária no Pampa e os diferenciais competitivos
por Marcelo Benevenga Sarmento

Estima-se que em 2050 a população mundial será de 10 bilhões de pessoas. Para isso, segundo a FAO, a agricultura terá que produzir nos próximos 40 anos o que temos obtido nos últimos 12.000 anos e isso em uma área cada vez mais limitada de solo, recursos minerais, água e alto preço dos combustíveis. Portanto, é cada vez mais necessário termos em mente aspectos como segurança alimentar, bem estar animal e sustentabilidade em todas as atividades agrícolas.
Em 1960, o cultivo de apenas um hectare era suficiente para produzir alimento para duas pessoas, em 1995 um hectare foi suficiente para quatro. Estima-se que, para 2025, um hectare deverá produzir alimentos para até seis personas. Assim, em um período de 40 anos duplicou-se a produção de alimentos para atender a uma demanda cada vez mais crescente, embora o aumento da área de cultivo tenha sido pouco significativo. Para as próximas décadas o aumento na produção agrícola deverá ser obtido nas mesmas áreas já em cultivo ou em áreas degradadas em recuperação. Em tempos de escassez de alimentos, fibras e energia desenvolver uma agricultura também focada na conservação dos recursos naturais torna-se cada vez mais importante.
Nesse contexto, a produção pecuária na Campanha Gaúcha e países vizinhos assume papel de grande relevância. Baseada em campo nativo e/ou pastagens cultivadas, a produção a pasto possui diferenciais em relação aos animais produzidos com base em grão.
A pecuária da região está baseada em campo nativo. Práticas como o ajuste da carga animal, diferimento, adubação, sobressemeadura de espécies de inverno, desde que bem conduzidas não apenas incrementam significativamente o rendimento de forragem e o ganho animal por hectare, mas também promovem a manutenção e a recuperação da biodiversidade de fauna, flora e proteção do solo contra a erosão.
Além dos sistemas produtivos essencialmente pastoris, mais recentemente a região vem se destacando também no uso dos sistemas integrados lavoura-pecuária. Estes sistemas minimizam as perdas dos anos “ruins” da lavoura, aumentam a ciclagem de nutrientes, permitem a rotação de cultivos de soja e/ou arroz no verão com pastagens de inverno e otimizam o uso das áreas, mão de obra e maquinaria, maximizando as margens do sistema produtivo.
O sistema produtivo da região Pampeana baseado em campo nativo e seus principais produtos como as carnes bovinas e ovinas tem comprovadamente vantagens competitivas em qualidade, bem estar animal, sustentabilidade e segurançaalimentar em comparação a outros sistemas pecuários do planeta.
Em trabalho realizado na Ufrgs e Incor demonstrou-se que a carne oriunda de bovinos criados em campo nativo ou melhorado possuem menos colesterol total, boa relação entre os ácidos graxos ômega 6 e ômega 3, riqueza em ferro, zinco, elevado teor de ácido linoleico, maior quantidade de antioxidantes naturais como o betacaroteno e vitamina E. Embora a população desconheça essa informação e a mídia insista em condenar a carne bovina, esses trabalhos mostraram que a carne bovina produzida nessas condições é tão saudável quanto à carne de salmão, atum e outros peixes famosos.
Em relação às emissões de gases estufa, o que se houve frequentemente na mídia é que a produção de carne bovina é um dos principais emissores de gases poluidores. Entretanto, em trabalhos realizados pela pesquisadora Cristina Genro da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé e colaboradores de outras instituições têm demonstrado que a pecuária feita com base em campo nativo, melhorado ou pastagens cultivadas não apenas emite bem menos do que tem sido amplamente divulgado como também nossos sistemas pastoris captam grande quantidade de carbono atmosférico, emitidos tanto pelas atividades agrícolas como por outras atividades humanas.
A demanda por alimentos vem aumentando e com isso a exigência cada vez maior de um mercado instável e altamente competitivo aliados ao crescimento populacional dos países asiáticos. A carne bovina é e continuará sendo artigo de luxo no mundo todo, com seus principais cortes sendo ofertados a preços elevados. A produção de carne vermelha na maioria das regiões do planeta é baseada em grãos, portanto, resulta de um processo caro, que demanda muita energia e gera um produto nem sempre saudável, pouco contribuindo para a segurança alimentar e sustentabilidade. Para que tenhamos competitividade na pecuária regional é imprescindível não apenas possuir diferenciais em relação aos nossos concorrentes, mas manejar nossos sistemas produtivos para aperfeiçoar estes potenciais. A riqueza em gramíneas e leguminosas de nossas pastagens nativas é inigualável. Possuímos uma genética centenária e diferenciada nas raças britânicas e suas cruzas. Temos uma base produtiva estável, resiliente, resistente às secas, inundações e capaz de sustentar a base pecuária a custos baixos na maior parte do ano. Campo nativo bem manejado ainda é a melhor arma contra a grama paulistinha e o capim annoni. Pecuária a pasto com estas características só existe em um lugar no mundo, a região dos Pampas da América do Sul. Está em nossas mãos manejá-lo bem e gerar produtos de qualidade com sustentabilidade. Pensemos melhor nisso.

Marcelo Benevenga Sarmento
(E-mail para correspondência: marcelobs05@hotmail.com)



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