colunas

DUAS GUERREIRAS !!
por Aurélio Casara

Data: quarta, 5 de junho de 2019 - Hora: 16:11

E chegou ao fim nesta manhã fria de sábado 18 de maio, em Aceguá, na fronteira do Brasil com o Uruguai, a Marcha Anual da ABCCC (Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos), uma das provas equestres mais duras existentes no mundo, o qual teve um final extraordinário, consagrando Xaiani Gonzales, como a primeira mulher a ganhar uma Marcha de Resistência no Brasil, completando os 750 km da prova com o tempo de 67'47''29, e carregando consigo uma bela história de amor, superação e persistência.

Nascida no município gaúcho de Aceguá RS, Xaiani Agerre Gonzales,16 anos, começou cedo a paixão pelas provas de resistência, incentivada e tendo por exemplo os primos e o irmão Robson Gonzales, todos Marcheiros e aos 6 anos de idade começou correndo provas de Enduro de 30 km e posteriormente passou para os percursos de 50 e 80 km, depois os famosos "Chasques" (Provas Uruguaias de longas distâncias), as quais são muito tradicionais no país vizinho, daí para frente seguiu seu o caminho natural chegando na Marcha de Resistência.

PrimeiroTroféu aos 6 anos de idade em 2010, Chasque Uruguaio 30 km.
Contando sempre com o incentivo e ajuda dos amigos, já que naquela época não possuía seu próprio cavalo, Xaiani pedia a algum amigo ou familiar um cavalo emprestado, para correr determinada prova, no entanto ao término, devolvia o animal e novamente ficava a pé.

Contudo, em meados de 2017, eis que surge Ponteira 273 na vida da família Gonzales, esta égua preta, nascida em 23/11/2008, filha de Pajarito La Invernada e Ponteira 93, tida por seu antigo proprietário como uma égua "Descarte", então Ponteira foi dada ao seu irmão Robson, como parte de uma rescisão trabalhista, já que ele fora demitido da Cabanha que trabalhava e assim que chegou em casa com a égua, Xaiani a pediu para monta-la, sentiu que tinha que ficar com ela, mas quis o destino que ainda não fosse a hora das duas se juntar definitivamente.

Precisando de dinheiro, já que estava por construir sua casa na cidade, Robson a vendeu e em seguida o novo proprietário a revendeu também, porém a égua volta para o convívio da família Gonzalez já que seu primo Arthur Junguitu "o Vasco", foi contratado para prepara-la e correr a difícil Marcha da Integração.
Foi aí que em 2018, Ponteira correu simplesmente a marcha com o maior número de conjuntos de sua história até aqui, onde participaram 64 conjuntos e ela completou a prova em quinto lugar na geral.

Passados três meses do seu feito, Ponteira estava à venda novamente, desta vez, segundo conta Xaiani, ficou "desesperada" para compra-la, porém, não tinha o recurso necessário.

Foi aí que pediu uma parte ao seu pai, outra à sua mãe, juntando assim a importância de três mil reais, mas ainda faltavam outros dois mil, já que o valor da Ponteira era de cinco mil reais. Xaiani não desanimou e foi aí que resolveu vender seu único bem, uma vaca e faltando apenas mais uma quantia que fora completada pelo irmão Robson e assim foi e finalmente conseguiram comprar a "Pretinha", como é carinhosamente chamada.

Então começa, em definitivo, talvez a parte mais bonita desta história, diagnosticada com ansiedade, Xaiani encontrou em Pretinha, a motivação necessária para superar seu problema, assim descrito por ela:
"Quando tenho que lidar com cavalo, não tenho tempo para pensar, quem sofre com a síndrome de ansiedade, sabe que "mente vazia" é um gatilho para crises.

Mesmos que muitos pensem, não é fácil tratar um cavalo, os gastos são inúmeros, e a minha pensão vai toda na minha égua, como não tenho campo, cuido minha égua em um terreno nos fundos de casa. Basicamente a ocupação com a Ponteira é o que me dá suporte, quando temos um cavalo em casa, não temos tempo para mais nada"

A rotina diária das duas consiste em 30 km de treinamento, por vezes 40, sendo 20 pela manhã e 20 à tarde, tendo apenas folgas aos domingos.
"Tenho uma rotina muito particular de cuidados com a Pretinha, já que não possuo campo, cuido dela no terreno nos fundos da minha casa"

É chegado então o dia 4 de Maio, dia da largada para os primeiros 30km de uma jornada total de 750, iniciando assim os primeiro quilômetros de um grande feito a ser alcançado, mas este vem a seguir. Primeiro, mas não menos importante, temos a superação do dia a dia, já que para muitos, Ponteira 273 não tinha condições de chegar no final dos quinze dias, já que, possui uma lesão nos membros anteriores, principalmente na pata dianteira direita.

Foram dias de muita expectativa, cada passo bem pensado juntamente com a família, já que todos marcheiros e moradores de Aceguá, estavam presentes a cada passo, a cada quilometro, a cada chegada para avaliar, ajudar, aconselhar, mas principalmente para motivar o conjunto.
"Eu passava Água Benta nas patas dela nos intervalos, e minha Vó a Benzia"

"Usava uma fita vermelha na Cabeçada para dar sorte"



"Nem os arreios completos eu tinha, apenas a sela, o restante fui pegando com um e com outro, emprestado"
"Ela foi uma guerreira nestes quinze dias, mesmo que estivesse com dor, nunca me negou "uma tocada", ouvi comentários de fora, questionando a minha capacidade de condução, e a sua coragem para completar o percurso. "Gosto de ressaltar isso para mostrar que quando Deus põe um propósito em nossa vida, ninguém nos tira, corri no meio dos "grandes" antes da primeira etapa livre, ninguém me notava, não sei explicar, isso tudo foi obra de Deus, não consigo expressar em palavras para descrever tamanho milagre"


Foi assim então, que Xaiani Gonzales se tornou a primeira mulher a ganhar uma Marcha de Resistência, com muita fé, coragem, perseverança, muita força de vontade e também muita competência foi o que levou este improvável conjunto ao triunfo.

Sobre o futuro, Xaiani diz que continuará competindo e complementa:
"O mundo está em transição, as mulheres estão conquistando lugar em todos os meios, por vezes me vi pensando em desistir, por comentários desagradáveis questionando minha capacidade, mas eu jamais dei ouvidos, hoje me orgulho por não ter desistido, nem pela Ansiedade e nem pelo machismo, Aprendi que não existem limites, aprendi a confiar em Deus, sabia desde o início que Ponteira e eu, tínhamos um propósito juntas".

Quanto a "Pretinha", Xaiani diz que, ela terá o descanso merecido, pois já cumpriu o seu papel como competidora, agora, Ponteira 273 iniciará a vida reprodutiva, ficando apenas na espera de encontrar um reprodutor a altura de uma égua que tem seu nome escrito na história.

Autor: Aurélio Casara
Fotos: Acervo Pessoal e La Rural Fotografias (Everton Marita) .



Venha e participe Conosco!
Deixe seu comentário,
Até a próxima.

Já viu os animais que vendemos? Veja Aqui!