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Tomada de decisão no agronegócio
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: quinta, 24 de maio de 2018 - Hora: 11:29

O atual contexto do agronegócio global mostra um cenário dinâmico de importantes transformações empresariais.

A abertura econômica, a desregulamentação dos mercados e a formação de grandes blocos econômicos são as principais mudanças que trouxeram a globalização e a necessidade de incrementar a produtividade e a lucratividade do agro. Nas últimas duas décadas é também crescente o número de fusões e aquisições no mercado de multinacionais, o que tem resultado no oligopólio empresarial no setor de sementes, agroquímicos, biotecnologia e frigoríficos. No setor varejista poucas empresas concentram o mercado gerando desigualdade de faturamento entre estas e outras empresas de porte regional, acarretando, com isso, em menor competitividade.

As mudanças ocorridas refletem, em nível de produtor, em uma gama enorme de opções tecnológicas, porém, estas são oriundas de poucas empresas, acarretando em elevados custos de produção. Para o produtor este é um fenômeno que reduz sua capacidade de barganha na compra de insumos, o que refletirá nos seus custos de produção. A capacidade de negociação do produtor na hora da venda de seus produtos também fica comprometida, o que resultará em pouca barganha e baixos preços de venda.

No cenário climático, há também alta imprevisibilidade e instabilidade dos eventos, apesar da tecnologia aplicada nos modelos estatísticos. As mudanças climáticas podem ainda trazer maior déficit hídrico para algumas regiões, temperaturas mais elevadas ou enchentes para outras e menor adaptabilidade das culturas agrícolas e raças animais.

Em termos de economia, as altas taxas de juros, a alta do dólar, as indefinições de preços mínimos e políticas setoriais e os problemas institucionais que o país enfrenta acabam por se refletir nas cadeias produtivas e inclusive dentro das propriedades rurais.

Para os produtores rurais, as dificuldades vão desde a concepção e planejamento dos sistemas produtivos, escolha de cultivares e raças, passando pela compra e venda de insumos até a capacitação de colaboradores e gestão de custos de produção. Está cada vez mais complexo produzir bem com lucratividade e ainda ser sustentável.

Outra consideração importante que preciso fazer é em relação à biologia. Tive um professor uruguaio que sempre dizia: "As plantas e animais são seres vivos, isso aprendemos ainda na escola". Pois é caro leitor pode parecer uma idiotice, mas não é. Cultivamos plantas e criamos animais, seres vivos que necessitam de alimento, água, descanso, cuidados, que têm suas exigências em clima, solo, e, assim como nós humanos, também detestam pragas e doenças. Precisamos voltar a compreender a biologia inserida nos sistemas produtivos.

Em termos de recursos humanos, as empresas tem a dificuldade adicional da contratação de mão de obra qualificada para utilizar as novas tecnologias e adaptá-las as necessidades de cada propriedade e sistema produtivo. Espera-se ainda que as novas leis trabalhistas possam, enfim, melhorar as relações para que reduzam os processos judiciais existentes e tanto empregador como colaboradores possam trabalhar e produzir em paz.

Finalmente, na outra ponta da cadeia estão os consumidores, com maior informação e poder aquisitivo, altamente exigentes quanto a produtos de melhor qualidade, seguros, práticos, que respeitem o bem estar animal, as leis trabalhistas e ambientais. Conceitos recentes como certificações, rastreabilidade, boas práticas pecuárias, boas práticas de fabricação e boas práticas agrícolas, dentre outros passam não apenas a fazer parte das propriedades rurais, mas de toda a cadeia produtiva como uma direção inevitável a seguir.

Neste cenário cada vez mais dinâmico e turbulento, onde o produtor rural necessita de sólido conhecimento técnico na busca de competitividade e até mesmo sobrevivência, o processo de tomada de decisão reveste-se de grande relevância. Para o agronegócio brasileiro continuar se consolidando, não nos resta dúvida que a tomada de decisão depende de um sólido embasamento técnico em um diversificado portfólio de alternativas tecnológicas.

Não nos serve mais decidir com base em mera intuição, mas sim em critérios objetivos bem fundamentados. Para auxiliar na tomada de decisão temos à disposição diversa gama de apps de previsão de preços, condições climáticas, manejo de pastagens, cálculo de nutrição animal, monitoramento de pragas e doenças, cálculos de custos e softwares de gestão. Estas ferramentas não dispensam a experiência prática, mas esta sozinha não é mais suficiente, necessitando, assim, de um conjunto de informações gerenciais para que as decisões tomadas tenham menor probabilidade de erro.

Tanto para o uso das ferramentas como na interpretação dos dados obtidos por elas é imprescindível a base técnica do profissional do agronegócio. Neste aspecto só existe um caminho, nos capacitarmos profissionalmente, e isto é em todos os níveis, técnico, superior, pós-graduação, treinamento. A Figura em anexo mostra os seis grupos de variáveis envolvidas no processo de decisão no agronegócio e a capacitação como subsídio para enfrentarmos as dificuldades que ocorrem no setor.

Os processos decisórios são cada vez mais importantes para o agronegócio. Como vimos, os cenários climáticos, comerciais, tecnológicos, produtivos e jurídicos são muito dinâmicos e complexos, refletindo-se em uma diversidade de situações mutantes que se apresentam no cotidiano das empresas.

Nesse sentido, o profissional do agronegócio deve se precaver pela capacitação contínua e correta utilização das ferramentas disponíveis, embasando, desta forma, suas decisões em aspectos objetivos e não em um simples "achômetro" sujeito a modismo e opiniões pessoais.

O setor rural brasileiro tem um potencial imenso, mas precisa urgentemente equacionar as decisões gerenciais para poder competir com vantagens em um mundo global com exigências diferenciadas tanto das empresas, produtores como dos consumidores.



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