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Construindo a produtividade de uma lavoura.
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: quarta, 2 de maio de 2018 - Hora: 11:15

A busca incessante pela produtividade faz com que esqueçamos como ela é obtida, ou melhor, construída. Ela é construída, pois compreende uma gama de fatores genéticos, ambientais e de manejo agronômico que são "construídos" etapa por etapa como na construção de um prédio.

Desde a escolha da área e da semente até a data e as condições em que a colheita é conduzida podem contribuir para moldar o patamar de produtividade a ser atingido em uma lavoura. Produtividade é o somatório de uma gama de fatores que vão se acumulando positivamente ou negativamente deste antes do ciclo produtivo e que, por fim, irão "formar" o número de sacas colhidas.

Portanto, são as boas ou más escolhas feitas por nós que irão determinar o nível de produtividade alcançada. Os renomados consultores Paulo Dejalma Zimmer e Dirceu Gassen não se cansam de salientar estes aspectos em suas palestras e artigos. Gassen costuma enfatizar que a diferença entre um produtor que colhe 80 sacas/ha de soja e um que colhe 30 está na qualidade dos processos e isso depende do conhecimento técnico que é aplicado por hectare.

Frequentemente ficamos em dúvida sobre qual fator tem maior peso na produtividade da cultura, se o clima ou o manejo. Para se compreender como ela é construída precisamos analisar os fatores envolvidos e os componentes do rendimento de grãos (Ver Quadro um em anexo). A produtividade de uma cultura envolve a interação dos fatores genéticos, edafoclimáticos e técnicas de manejo. Quanto mais eficaz essa interação, maior será a produtividade como reflexo da exploração adequada do potencial genético da cultivar em uma determinada condição ambiental e de manejo agrícola.

Para definir o número de grãos produzidos por área devemos ainda conhecer os componentes do rendimento e como eles são formados. Os principais componentes do rendimento vegetal são: 1-número de plantas por unidade de área (ex. m2), 2-número de inflorescências por planta, 3-número de grãos por inflorescência e 4-massa média do grão. Eles são definidos em distintas etapas do ciclo da planta e, dependendo da condição que encontrem pela frente poderão expressar em maior ou menor grau o potencial genético da cultivar. Assim sendo, a simples determinação da produtividade por ocasião da colheita não é suficiente para entender o peso que cada um dos fatores envolvidos teve. Há a necessidade de se avaliar o potencial genético da cultivar e os fatores edafoclimáticos e de manejo ocorrentes ao longo de todo o ciclo da cultura (Quadro 1) para poder interpretar razoavelmente o peso que cada um deles teve na produtividade da cultura.

O clima, por exemplo, tem uma grande participação na produtividade da soja, destacando-se a radiação solar, o fotoperíodo, a temperatura do ar e a chuva, os quais definem a produtividade potencial (sem estresses ambientais) e atingível (com estresses ambientais observados). Nas condições Brasileiras a variabilidade climática é enorme, sendo o déficit hídrico o principal fator condicionante das significativas discrepâncias observadas em produtividade nas diferentes regiões e safras. Pesquisas tem demonstrado que, para a soja no RS, o desvio médio de produtividade entre safras é de ± 444 kg/ha, bem acima do Mato Grosso, que fica ao redor de ± 192 kg/ha. Na Campanha Gaúcha, por exemplo, sabe-se que, a cada 10 anos, em média sete apresentam déficit hídrico, o que se constitui em grande fator de risco para esta cultura a médio e longo prazo na região.

Para redução do risco climático, já que não temos o Whatsapp do São Pedro, devemos prestar atenção em algumas práticas produtivas recomendadas pela pesquisa:
A escolha de uma cultivar adaptada às condições edafoclimáticas regionais e de uma semente de alta qualidade sem dúvida são o ponto inicial para a condução de uma lavoura de alto desempenho. A definição de datas de semeadura com menor risco de ocorrência de déficit hídrico, principalmente para o período de enchimento do grão e a utilização de cultivares de ciclo curto também contribuem para minimizar as perdas. Ainda, o manejo prévio da cultura, intensidade do pastoreio animal na pastagem em integração, presença de boa quantidade de palhada, descompactação do solo e cultivos em sucessão e rotação completam o aprimoramento nas condições do solo que objetivam aumentar a retenção de água, melhorar a captação de águas pelas plantas e assim evitar perdas significativas nas épocas de déficit hídrico. Os riscos climáticos podem ser minimizados se as tecnologias de processos, já comentadas em coluna anterior, fossem melhor conduzidas nas nossas lavouras.

Atualmente sabe-se que algumas cultivares de soja tem um potencial genético de produzir ao redor de 180 sacas/ha. Mas, por que são raras as lavouras que pelo menos se aproximam desses patamares? Como vimos anteriormente, o número de variáveis envolvidas para que uma planta atinja todo o seu potencial é enorme e a interação entre elas é complexa. Gassen costuma salientar que nós técnicos e produtores precisamos pensar com a “lógica da planta”, mas na prática o que seria esta lógica? Como ser vivo autotrófico fotossintetizante, a planta anual precisa rapidamente emergir e estabelecer-se no solo, emitir área foliar adequada e que esta seja sadia, realizar eficientemente a fotossíntese e deixar grande número de descendentes (sementes). Porém, se a semente for de baixo vigor, estiver contaminada com patógenos e a densidade de semeadura for inadequada para a cultivar, ela não conseguirá expressar todo seu potencial genético. Tendo menor área foliar sadia a fotossíntese também fica prejudicada resultando em baixa produção de fotoassimilados e menor capacidade de enchimento dos grãos. Como resultado, o produtor colherá 30 sacas ao invés de 80sacas/ha. Frustrante, sim, com certeza, mas provavelmente tenham sido as nossas escolhas associadas às condições climáticas desfavoráveis que levaram a este resultado. Vemos com frequência lavouras uma ao lado da outra (produtores diferentes) apresentando desempenho completamente distinto.

Com os custos de produção cada vez maiores os ajustes agronômicos “finos” comentados neste texto demonstram a necessidade de construirmos a produtividade de nossas lavouras como se constrói uma casa, tijolo a tijolo, etapa por etapa. Não podemos mais ficar tão dependentes das tecnologias de insumos, mas sim aprimorar os processos produtivos dentro das propriedades rurais. Isso ainda depende apenas de nós. Os fatores envolvidos na produtividade devem ser analisados e com base neles elaborar um planejamento de todo sistema produtivo (no mínimo três anos) e não apenas para a cultura "principal". Um conjunto de detalhes nos processos realizados na gestão da lavoura pode fazer a diferença. Devemos pensar mais em como e quando fazer (processos) do que com o que fazer (insumos). Este pode ser um caminho mais viável para minimizar custos de produção, reduzir riscos devido às instabilidades climáticas e atingir um melhor resultado econômico-financeiro.

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