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Meio Ambiente: O agronegócio não pode ser considerado vilão
por Marcelo Benevenga Sarmento

Data: segunda, 12 de março de 2018 - Hora: 09:09

Paralelamente aos sucessivos recordes obtidos pela agropecuária, nos últimos anos, o agronegócio brasileiro vem sendo bombardeado fortemente por ONGs, grande parte da mídia, artistas e "experts" afirmando, na maioria das vezes sem nenhuma fundamentação técnico-científica de que a produção agrícola no país é altamente impactante ao meio ambiente. Cabem aqui alguns esclarecimentos.

Em 2017, as primeiras análises e resultados do Cadastro Ambiental Rural (CAR) no Brasil mostraram resultados talvez surpreendentes para muitos. Estes dados foram decodificadas pelo Grupo de Inteligência Territorial Estratégica da EMBRAPA (GITE).

De 1976 a 2011, o país aumentou cerca de 400% sua produção total de grãos com aumento de somente 40% na área cultivada (Figura 1), o que tem evitado a devastação de significativas áreas de vegetação nativa. Atualmente (safra 2017/18) cultivamos ao redor de 65 milhões de hectares, o que corresponde a 8% do território brasileiro com cultivos agrícolas. O Brasil possui 850 milhões de hectares (ou 8.5 milhões de km2). Se somarmos as áreas utilizadas com pastagens nativas e cultivadas (170 milhões de hectares) e os nove milhões de florestas plantadas, chegaremos a quase 250 milhões de hectares utilizados, ao redor de 30% do país (Figura 2).

Nenhum outro país no mundo produz tanto alimento, fibras e energia renovável utilizando um percentual tão pequeno de sua área. Nenhum outro país tem possibilidade de produzir tão bem ao longo dos 12 meses do ano com ampla diversidade de condições de clima, solo e relevo. A isto podemos sim chamar de sustentabilidade caros leitores.

Nos últimos 25 anos os governos federal e estadual atribuíram, legalmente, mais de 37% do território nacional, destinando-o a unidades de conservação, terras indígenas, quilombolas e assentamentos de reforma agrária. O Brasil, em vegetação nativa, conserva 66,3% de seu território (Ver Figura 2). A título de comparação os países com mais de 2,5 milhões de quilômetros quadrados somados (Rússia, Canadá, China, EUA, Índia, Austrália e Argentina) possuem, em média, 10% de seus territórios com áreas protegidas. Acrescenta-se ainda o fato de que as áreas protegidas nestas países compreendem áreas totalmente inóspitas ao uso agropecuário como desertos, alpes, relevos ondulados, neve, salinas, etc.

O Brasil com mais de 30% de áreas protegidas, incluindo unidades de conservação e áreas indígenas, é de longe o que mais protege o meio ambiente, e mesmo assim, ainda consegue destacar-se na produção agrícola como o maior produtor mundial em suco de laranja, café, laranja e açúcar, e o segundo maior em soja, carne de frango e bovina. Sendo também um dos maiores produtores globais de milho, óleo de soja, carne suína e algodão. Pertence ao seleto grupo dos maiores exportadores globais de suco de laranja, açúcar, soja, carne de frango e café, conforme dados da Revista Agroanalysis, referentes a 2017.

Esse extraordinário aumento da produção explica-se, nos últimos 40 anos, pela eficiente adoção de tecnologias como cultivares melhoradas de híbridos, transgênicos, disseminação do sistema de plantio direto, sistemas integrados de produção, melhoria no manejo das pastagens, sementes certificadas, tratamentos sanitários, adubos mais eficientes, dentre muitas outras.

Grande parte destes avanços tecnológicos vem sendo obtidos após o lançamento do Plano ABC em 2011/12 (Agricultura de Baixo Carbono) nos seus seis pilares: integração lavoura-pecuária-floresta, fixação biológica do nitrogênio, sistema de plantio direto, florestas plantadas, tratamento de dejetos animais e recuperação de áreas degradadas. O aumento na produtividade reflete diretamente a adoção e manejo aprimorado de tecnologias, o que também traz benefícios ambientais, sociais e econômicos ao produtor e às cadeias produtivas envolvidas.

Estes dados embora nos encham de orgulho não podem mascarar os sérios problemas que ainda temos que solucionar. Da precária infraestrutura logística de transportes e armazenamento, passando pelo uso incorreto de agroquímicos, questões fundiárias, legais e baixa taxa de uso de sementes certificadas são aspectos que ainda precisamos aprimorar, e, neste aspecto, incluo todos nós agrônomos, demais técnicos de ciências agrárias e produtores.

O CAR deve ser visto como um instrumento eficaz de planejamento e ordenação de uso do solo no Brasil, auxiliando produtores, técnicos e as entidades públicas a monitorar o uso da terra e a conservação da vegetação nativa. Adicionalmente entendo que o CAR poderá auxiliar na conservação dos serviços ecossistêmicos e indiretamente na produção agrícola, na qualidade dos alimentos obtidos e no bem estar animal.

Espero que as questões político-ideológicas que em muito tem atrapalhado nosso crescimento sejam, enfim, deixadas de lado e possamos produzir com paz e segurança no campo. Temos tecnologia disponível, condições ambientais favoráveis e produtores capacitados. Precisamos de incentivos governamentais em relação a crédito e seguros a juros subsidiados, política definida de preços mínimos e de apoio da sociedade em geral. Até a próxima.

Cordial abraço a todos.

Figura 1. Produção total e área cultivada de grãos no Brasil de
1976 a 2011 e estimativa para 2021 (MAPA, 2012).

Figura 2. Uso e ocupação de solo no Brasil.




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